sábado, 14 de fevereiro de 2009

Exposição - "Nova Arte Nova"

Arte Fresca
Uma inesperada tubulação dourada percorre as paredes de três andares da unidade paulistana do Centro Cultural Banco do Brasil. Pelo estilo e tonalidade, o sistema hidráulico parece estar integrado ao prédio da instituição. Trata-se de “ Pelos Tubos” , pintura assinada por Lia Chaia que remete aos preceitos do “site specific” ou sítio específico – tendência da arte contemporânea onde a obra ou instalação é criada exclusivamente para o espaço expositivo, dialogando com sua estrutura. O trabalho integra “Nova Arte Nova”, mostra sediada no CCBB de São Paulo até 5 de abril. O curador Paulo Venâncio Filho reuniu 63 artistas nacionais, provenientes de 14 estados, para compor um mosaico da diversidade de estilos, suportes e conteúdos que caracterizam a produção da atualidade. São criadores jovens, a maioria na faixa dos 30 anos, que levam frescor ao circuito de artes tanto no Brasil como no panorama internacional. Sem hierarquias ou rotulações prematuras, a exposição é desprovida de pretensões definitivas e vai ao encontro da necessidade dos artistas novos de terem suas criações expostas em uma plataforma de alta visibilidade para o grande público.
Cerca de 80 trabalhos estão distribuídos pelos três andares, além do térreo e subsolo, sem agrupamentos determinados por estéticas, conteúdos ou mídias. Dessa forma, o público pode realizar comparações encontrando similaridades e divergências ou aferir que a multiplicidade é mesmo o pivô onde se apoia a produção contemporânea. É assim, por exemplo, no terceiro andar onde se encontra a série “Zôo“ de Sara Ramos, fotografias de animais urbanos e artificiais retratados em cidades diversas. Aqui também situa-se “ Parker” de Otávio Schipper - composição de delicadas abstrações de tons azulados em aquarela. “ O circo dos sonhos” de Gustavo Speridião é um exemplo de como essa geração reinventa os movimentos estéticos do passado, dadaísmo neste caso, para forjar seus próprios caminhos.
Marilá Dardot, artista que há dois anos expôs a instalação “Sob Neblina” com repercussão positiva na mídia, volta ao CCBB paulistano com “Glossário/ Para viver na cidade”. Exibido no segundo andar, é um conjunto de fotografias de letreiros e sinalizações de rua com palavras otimistas, de A a Z – contra a crise, arte. No espaço interno do pavimento, o visitante se depara, logo ao entrar, com “ Desenhos com rejunte” de Bianca Tomasseli. Um muro branco que interfere no ambiente e altera a arquitetura da sala - mais um exemplar do “site specific” na exposição. “ Entrevista com o verde” de Carlos Contente utiliza traços infantis para reproduzir uma série de quadros com um divertido “talk-show” onde o próprio artista entrevista, com diálogos bem-humorados, a cor verde. Henrique Oliveira criou “ Coisa”, escultura que provoca, ao mesmo tempo, curiosidade e repulsa. “Gala” de Tatiana Blass, como contraponto, sugere brilho e beleza em acrílico sobre tecido. Fabiano Gonper, por sua vez, participa da mostra com “Escultura Plana”,escultura em mármore disposta no chão e “Pintura variável” , quadro de superfície reflexiva com moldura típica de obras clássicas.
No primeiro andar, os visitantes são recepcionados com a produção de Marcelo Sola. São desenhos e rabiscos que remetem às pichações de rua ou aos rabiscos em cadernos. Outro destaque é “Híbrido” de Julia Cseko. Trata-se de uma figura antropomorfa onde os pés são de animais aparentemente fantasiosos vestindo uma jaqueta perfecto – mais uma bem-vinda dose de humor na mostra. Também aqui estão interessantes semelhanças encontradas por Gaio na série “Duplos” - a disposição de livros em um móvel se assemelha inusitadamente à fachada de prédios de uma cidade desconhecida. Em outra imagem, um templo religioso se compara a uma casa de extrema rusticidade. Um dos principais destaques nesse setor é a instalação de Maria Lynch – um jardim de cores vibrantes e tecidos diversificados proporciona uma atmosfera sensorial e lúdica, convidando o visitante a um breve escape da vida real. Interessante também o conflito entre madeira e vidro proposto Marcelo Silveira em “Arquitetura do Interior”.
Outra conjugação de materiais improváveis acontece no térreo do CCBB. “Dublia Sculpture” de Alexandre da Cunha são aros de puro cimento “recheados” de espuma. “Multi functional comodare” de Daniel Acosta, objeto que se assemelha a uma cama circundada por estandes de madeira, conquista a interatividade dos visitantes. O subsolo foi dedicado majoritariamente aos registros em vídeo. Ronald Duarte, por exemplo, gravou “ Nimbo/Oxalá” - uma performance de interferência urbana com extintores de incêndio. O vídeo “ Tro-catroca” de Daniel Toledo traz homens e mulheres que trocam de roupa alternadamente, propondo um interessante jogo de identidade sexual. Destaque maior do subsolo é o lírico “ Ex-cárcere” de Celina Portella e Elisa Pessoa. Um registro em vídeo que agrega vídeo, artes-plásticas e movimentos de dança em uma única peça.
“ Nova Arte Nova” alia o trabalho apurado da curadoria em apresentar gente nova e talentosa com a organização que privilegia a livre percepção do público em relação ao tema tratado. Não há imposições de ideias ou conclusões fechadas. Dessa forma, a exposição traça um raro e esperado perfil da novíssima geração com um viés sintonizado com a amplidão de conceitos e formas exercidas pelos artistas. A percepção final é de que esses jovens criadores não seguem estéticas padronizadas, suportes consagrados ou discursos unânimes. O que vale para eles é “ diversidade, multiplicidade e heterogeneidade” como apontado pelo curador no folder da exposição. Atributos coincidentes com os tempos atuais onde a velocidade e troca de informações nunca foram tão intensas, acionando um contexto onde a expressão individual se relaciona de maneira intrínseca ao aspecto multi-facetado do mundo.

domingo, 5 de outubro de 2008

Exposição - " Brasil Brasileiro"

Sobre clichês e orgulho

“Brasil Brasileiro”, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil paulistano até 4 de janeiro de 2009, é uma exposição que não tem medo dos clichês. Pelo contrário, os reforça para constatar que o Brasil é, sim, tudo isso que falam dele. A mostra abraça conceitos que tangenciam uma nação idealizada para decodificar uma genética exclusiva do país. Se morar aqui é mesmo conviver com etnias miscigenadas, paisagens naturais arrebatadoras e com um povo que é reconhecido pela sua criatividade, pelo seu imaginário e por seu sorriso nas adversidades, por que não reunir obras que evidenciem justamente essas condições genuinamente brasileiras? Em um tom despretensioso, ausente de objetivos antropológicos ou de configurar uma história da arte no país, “Brasil Brasileiro”, sob curadoria de Fábio Magalhães, agrupa 174 obras de 69 artistas. São trabalhos que focam a produção da pintura nacional entre os séculos XIX e XX, reunidos em quatro temáticas diferentes: Nossos Sonhos, Nossa Gente, Nossa Terra e Nossa Luta. Dessa forma, diferentes estilos e épocas são dispostos lado a lado o que possibilita a identificação de similaridades entre escolas e períodos diferentes.
A primeira obra que o visitante encontra ao entrar no CCBB pode ser interpretada como uma síntese da exposição. Assinada por Nelson Leiner, a instalação, concebida exclusivamente para o evento, dispõe cadeiras de plástico cobertas com chita (tecido popular, colorido e de motivos florais) em um círculo. No centro, dezenas de estatuetas idênticas representativas da Iemanjá (entidade conhecida como “Rainha dos Mares”) são colocadas simetricamente no centro da roda em uma estrutura de degraus. Ao lado das cadeiras, luminárias brancas que lembram coqueiros, com bananas de plásticos no lugar das lâmpadas e guarda-sóis coloridos. Se o sentido não fica claro no primeiro instante, tem-se a certeza de que há algo de extremamente brasileiro na obra. Praia, candomblé e tropicália são algumas imagens suscitadas pelo encontro entre alguns elementos icônicos da brasilidade (banana, coqueiro, chita) com conceitos mais abstratos como simplicidade, criatividade e despojamento. O trabalho evidencia do que se trata a exposição.
No terceiro andar estão situadas as obras que foram reunidas sob o tema “Nossos Sonhos”. Procurou-se neste pavimento, reunir trabalhos que tratassem da forte religiosidade do país, das crenças e da capacidade inigualável dos brasileiros de festejar. Alex Flemming contemporaniza a imagem de São Jorge e da Sereia em estruturas metálicas, de cores fortes e traços quase irreconhecíveis. Maria Auxiliadora retrata um parque de diversões, típico do interior do país, com traços simples e ingênuos. “Madona” de Alfredo Volpi também transmite singeleza. Outro destaque é o belo “Roda” (1942) de Milton Dacosta. Cabe aqui uma observação a respeito da luminosidade da sala, escura demais. A própria “Madona” de Volpi tinha a percepção da coloração prejudicada devido à ausência de luz, assim como “O Grande Carnaval” de Di Cavalcanti. Em alguns casos o ponto de iluminação refletia diretamente na obra (como em “Estrela da Manhã” de Tomás Santa Rosa) prejudicando a visão quando o visitante se posta frontalmente ao quadro. Um problema aparentemente de simples resolução, mas que pode comprometer o resultado da mostra.
“Nossa Terra” e “Nossa Gente” estão no segundo andar. No espaço expositivo, a pintura “Flora e fauna brasileiras” (1934) de Cândido Portinari pertinentemente recepciona o visitante para o bloco que trata de temas relacionados ao cenário natural do país. Esse trabalho é um resumo da imagem representativa do que é a natureza brasileira, ou pelo menos de uma visão difundida do que seja a beleza ou o exotismo dos recursos naturais dessa terra. Estão ali o papagaio, o mico, a banana e a diversidade botânica, elementos sinônimos de brasilidade. “Porto Feliz” de João Batista da Costa representa a exuberância verde e “Praia da Barra” (1952) de Arcângelo Ianelli é uma das imagens litorâneas na exposição. O urbano foi contemplado em trabalhos como “Rua dos Sapateiros” (1966) de Yoshiya Takaoka. Três exemplos que denotam a diversidade – e a beleza - das paisagens. Neste segmento também se encontram as pinturas de natureza-morta sendo estas divididas em flores e frutas, com a presença indefectível das bananas, principalmente no trabalho de Antonio Henrique Amaral.
A temática “Nossa Gente” apresenta retratos que procuram desvendar alguns arquétipos da sociedade. A sensualidade miscigenada talvez nunca foi tão bem representada como nos trabalhos de Emiliano Di Cavalcanti, dois exemplares da notoriedade desse artista estão neste segmento. O caipira é uma recorrência no trabalho de Almeida Junior, presente com “Caipira Picando Fumo” (1893). “Cae” (1968) de Cláudio Tozzi se destaca no mural expositivo pela divergência estética dos outros quadros. O retrato traz dois desenhos idênticos, porém opostos de Caetano Veloso com uma representação de um papagaio entre elas. Contracultura, pop-art, tropicália, muitos atributos se encontram neste trabalho. Outros destaques: “Retrato de Mulher” de Flávio de Carvalho, “Menina do Laço de fita” de Alfredo Volpi e “Lavandeiras do Abaeté” de José Pancetti (1957). No bloco, uma seção foi dedicada a um importante ícone do brasileiro: o futebol. Aqui o espiral colorido da “Bicicleta” de Antonio Peticov é um deleite vertiginoso para os olhos ao retratar os rastros de um jogador praticando o sempre aclamado movimento em campo.
As dificuldades enfrentadas no país são percorridas no subsolo do CCBB onde se encontram as obras do segmento “Nossas Lutas”. Aqui foram privilegiados os trabalhos de temáticas mais sociais. A ditadura militar (1964-1985) não poderia ficar de fora. “Terceiro Mundo” de Cláudio Tozzi possui na parte superior da moldura um material que remete aos mármores funerários e na inferior, roupas amassadas, rasgadas e amontoadas – alusão às mortes ligadas ao regime. “Os desaparecidos” (1965) de Rubens Gerchman é outra corajosa evidência do empenho dos artistas em denunciar as agruras do período. “Greve no ABC”, por sua vez, relembra a repressão à greve dos metalúrgicos de São Bernardo em 1978 e “Repressão” de Cícero Dias é uma representação da angústia e do terror que é viver sob essa condição.
Um dos artifícios usados em “Brasil Brasileiro” é o uso de músicas nacionais reconhecidas nos locais de exposição. A idéia é provocar a audição para situar ainda mais o visitante na brasilidade pretendida pela mostra. O resultado é uma imersão dos sentidos em características inatas ao país. Esse recurso reforça a possibilidade da exposição de agradar um grande número de pessoas com uma fórmula bastante simples: aliar a suposta despretensão da produção com a beleza incontestável dos quadros. Como descrito no catálogo, a mostra é leve, gostosa como “uma tarde de sol, num domingo à beira-mar”. Assim, “Brasil Brasileiro” apresenta nomes de peso das artes plásticas ao grande público, numa disposição fácil e agradável. O que o visitante observará é mais do que a imagem do seu país, é um reflexo dele mesmo, de suas belezas, de seus anseios, de suas conquistas. Corre-se o risco de surgir um sentimento que só provêm após reconhecimento e aceitação: o orgulho de ser aquilo que se é.
Local: Centro Cultural Banco do Brasil
Endereço: Rua Alvares Penteado, 112, Centro, São Paulo (SP)
Tel: 11-3113-3651
Temporada: 21/02 a 20/04/2008
Horários: Quintas, Sextas e Sábados às 19h30 e domingo às 18h




terça-feira, 2 de setembro de 2008

Teatro - " Dois Irmãos" de Milton Hatoum

Retrato de família
Fotos antigas de família costumam evocar fantasmas e trazer à tona histórias esquecidas ou que não desejam ser lembradas. Os retratados, a despeito da imobilidade, parecem retomar respiração e batimentos cardíacos graças aos relatos ouvidos sobre os acontecimentos do passado e ao uso da imaginação. Nessa capacidade de relembrar o passado é onde está situada a importância dessas imagens para desenterrar as raízes de um agrupamento familiar e jogar luz sobre os motivos das configurações atuais do clã. A foto, muitas vezes corroída pela ação do decorrer dos anos, não deixa de ser uma evidência de que incontestavelmente situações, relacionamentos e pessoas trouxeram a família para os seus traços contemporâneos. É aproveitando o caráter reanimador e, portanto, esclarecedor, das fotografias antigas que o diretor Roberto Lage abre a peça “Dois Irmãos", baseada no premiado romance homônimo de Milton Hatoum e em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil paulistano até cinco de outubro. A adaptação da narrativa literária para a linguagem teatral ficou sob a responsabilidade do dramaturgo Jucca Rodrigues.
A partir de uma formação estática que remete à fotografia impressa no folheto do espetáculo, o enredo se desenvolve como no livro situando a ação em Manaus, cidade de origem do autor. A produção também leva aos palcos os contornos políticos da obra ao descrever uma face do Brasil desde a década de 40 até aos episódios provocados pela ditadura militar (1964-1985). Após uma grave briga entre os irmãos adolescentes Yaqub (Gabriel Pinheiro) e Omar (Jiddu Pinheiro) onde o último fere o rosto do primeiro com um objeto cortante devido ao ciúme por Lívia (Bete Correia), os pais Halim (Luiz Damasceno) e Zana (Imara Reis) resolvem separar os filhos por um tempo despachando para o Líbano o irmão mais velho, Yaqub. A volta do primogênito evidencia as personalidades destoantes dos irmãos. De temperamento mais recatado e voltado para os estudos, Yaqub diverge diametralmente de Omar. Este, agressivo e de impulsos desmedidos, apresenta caráter hedonista e ocupa seu tempo com o conhecido trinômio festas, bebidas e mulheres. A estória, fragmentada e não-linear, é narrada por Nael (Rodrigo Ramos), filho da empregada índia da família, Domingas (Viviane Pasmanter). Os acontecimentos ainda contam com a participação da irmã Rânia (Tatiana Thomé).
Embora a cerne da peça esteja mesmo concentrada nos embates de temperamento dos irmãos, os outros personagens possuem papel de grande destaque no enredo. Halim, por exemplo, é o simpático libanês patriarca da família. Desenvolvido com apuro por Luiz Damasceno, Halim funciona como a válvula do humor e poesia, portanto de escape, da encenação. Imara Reis, por sua vez conduz com segurança a mãe, Zana. A interação entre os dois é um dos pontos-forte da peça. A atriz Bete Correia, idealizadora do projeto, se desdobra em três papéis de “apoio” para o enredo sem destoar dos seus colegas de cena. Tatiana Thomé empresta doçura a sua Rânia, mesmo caminho traçado por Rodrigo Ramos para Nael. Um dos “periféricos” de grande relevância está na figura da empregada Domingas. Viviane Pasmanter obtém excelentes momentos como na cena onde ela conta a Nael sobre o seu passado na aldeia ou, quando ausente do desenrolar principal da cena, saboreia uma laranja. Com boa caracterização, Viviane está traçando passos de evolução na carreira ao se arriscar em personagens que normalmente não interpretaria na televisão. Os irmãos na vida real Gabriel e Jiddu Pinheiro desenvolvem Yaqub e Omar explorando não apenas as diferenças como também as semelhanças entre os dois irmãos fictícios.
O elenco ganha um eficiente suporte físico para a qualidade do seu trabalho. O cenário de Alexandre Trono transporta para o palco a reprodução artística de uma raiz de seringueira sustentada acima dos personagens. Instalação apropriada para uma peça que acontece no Amazonas e que tem a intenção de explorar a origem da família, ou melhor, “as origens” como diz Nael no começo da encenação. O tom sépia usado pela equipe de arte remete ao envelhecimento do papel além de sugerir impressões diversas como lembranças remotas, passado e sonho. Embora a ação esteja situada em uma selva tropical, esse tipo de tonalidade também proporciona certo aspecto de aridez. Referência ao Líbano, país dos ascendentes do autor de “Dois Irmãos”, e muitas vezes citado na peça, inclusive com algumas curtas passagens citadas na língua libanesa. A trilha sonora leva esse carga genética e oscila entre cânticos libaneses e canções típicas do Amazonas. O figurino bem executado de Paula Valéria ajuda na contextualização da peça traduzindo o que e como se vestia na época dos acontecimentos.
Com esses fatores, a montagem “Dois Irmãos” alcança as expectativas exigidas por se tratar de uma encenação inspirada em um livro que foi considerado por muitos críticos literários como “o melhor romance brasileiro dos últimos 15 anos (1990-2005)” - o que está longe de ser pouco. Em 100 minutos de duração, os realizadores sintetizaram através da escolha de passagens essenciais para a trama, o que de mais relevante havia para o entendimento, e o subseqüente sucesso, da produção - sem soar maçante. O resultado é uma peça que transporta os espectadores para um tempo e espaço distantes (pelo menos para os paulistanos) utilizando recursos peculiares ao bom teatro: enredo premiado, direção eficiente, arte original e – o mais importante – um elenco talentoso e que acredita na produção.
Serviço
Local: Centro Cultural Banco do Brasil
Endereço: Rua Alvares Penteado, 112, Centro, São Paulo (SP)
Tel: 11-3113-3651
Temporada: 15/08 a 05/10/2008
Horários: Quintas, Sextas e Sábados às 19h30 e domingo às 18h

sábado, 15 de março de 2008

Teatro - " Quartett" de Heiner Müller

A sedução em xeque
O casal entra em cena por lados opostos. Como lutadores no tatame, realizam um cumprimento respeitoso, mas que denota um conflito que está prestes a começar. O homem rapidamente se deita de bruços à frente do palco com a palma da mão direita virada para cima. É um corpo desfalecido. A mulher se senta em uma acomodação e o observa com um olhar fixo que oscila entra a arrogância e o desprezo. Destoando do aspecto de embate, no entanto, o que se sucede é uma declaração exaltada de amor por parte dela. Mais do que um romantismo arrebatador, o que fica sublinhado na declamação é o desejo físico pelo seu alvo de apreciação. Contudo, o que seria uma expressão passional logo ganha contornos de farsa e de deboche. Tratava-se de uma encenação muito bem traçada de uma admiração inexistente. O primeiro movimento de um duelo pontuado por representações onde a capacidade de seduzir com eficiência é a medida que concede a vitória ao jogador.
Embora o sexo seja o tom predominante nos discursos e nas ações dos sádicos Valmont (Guilherme Leme) e Merteuil (Beth Goulart), é um sentimento aparentemente menos óbvio que fomenta o relacionamento entre os dois. Por amor ou por tédio, eles estão ali, em um uma sala de um apartamento qualquer da cidade, provando um ao outro que ainda são capazes de suscitar atração e repulsa com intensidades suficientes para destroçar índoles alheias. É nesse pêndulo impreciso e ardiloso que se sustenta a peça “Quartett”, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil paulistano até 20 de abril. Baseado no clássico “Ligações Perigosas” de Chordelos de Laclos (e lembrado principalmente pela versão cinematográfica de Stephen Frears), o texto do alemão Heiner Müller (1929-1995) é na superfície um embate feroz entre dois libertinos motivados pela necessidade de afirmar destreza na arte da sedução (e, por extensão, na de amargurar vidas). Por outro lado, em uma profundidade menos rasa, aborda de uma maneira ora velada ora impulsiva, as amarras que fazem o par carregar nuances de casal.
A montagem do diretor Victor Garcia Peralta leva os personagens do século XVIII, época retratada no livro original, para um tempo que se aproxima da atualidade. O efeito é conquistado ao utilizar a projeção de vídeo para situar a ação em um espaço urbano onde da janela observa-se o movimento noturno e sorrateiro de uma cidade indefinida. Essa contextualização ressalta a atemporalidade das motivações dos personagens que se baseiam em exercícios de poder, sedução, vingança e hedonismo. Tais impulsos também estão evidenciados no figurino da peça. Merteuil, de temperamento majoritariamente masculino, conquista sensualidade na transparência da saia e na revelação do colo e das costas. Sua imagem exala força e feminilidade. Valmont, por sua vez, carrega graves marcas de unhas na camisa. São vincos que expõe possíveis agressões do sexo oposto – gênero que o personagem classifica como presa no seu território de conquista. O aspecto final resulta em fragilidade e certo desleixo.
Assim como nas roupas, um dos artifícios utilizados em “Quartett” na atuação lida essencialmente com as aproximações e as disparidades entre o masculino e o feminino. Ao demonstrar as técnicas de conquista – e, por conseqüência, de aniquilamento - sobre a pessoa escolhida, os protagonistas trocam de papel, alternando ora de caça para caçador, ora de manipulador para manipulado. Dessa forma, Valmont se transfigura na esposa que está prestes a trair sua fidelidade conjugal enquanto Merteuil assume a conduta do próprio Valmont. Em outra cena, a protagonista abandona seu ar de controle e dominação para se entregar à personificação de uma figura virginal e supostamente ingênua que cede à falsa retórica de Valmont. São nestes momentos que o virtuosismo dos atores é colocado à prova. Beth Goulart interpreta esses tipos diversos com precisão: reconhece-se que é a personagem interpretando um homem ou mulher fragilizada e não a própria atriz. Guilherme Leme, por sua vez, necessita de mais cuidado para não desbocar no caricato - mesmo que o texto conceda licença para o humor (que em muitas passagens do texto, funciona). É preciso certo esforço para notar traços de Valmont- e não de Guilherme Leme - quando o personagem se passa por outro.
Nos hiatos entre os jogos de inversão de papéis, os personagens se movimentam pelo palco como felinos arredios - prontos para o ataque. Em oposição ao viés de disputa que permeia toda a peça, ocorrem curtos intervalos de aproximação. É durante estes trechos fugazes que as intricadas ligações entre os protagonistas se fazem notar – e também onde os atores conseguem manifestar com bastante cumplicidade os sentimentos dúbios presentes no texto. Se minutos antes o conflito era uma ato irrefreável, em poucos segundos as emoções passam a exprimir desejo e paixão em doses rápidas e avassaladoras. Uma condição paradoxal que persiste inclusive no encerramento de “Quartett". Como na cena inicial, o corpo se encontra estendido e com a mão direita virada para cima e Merteuil o observa com o mesmo olhar penetrante. Um acontecimento inesperado, porém, antecipa o desfecho e deixa a platéia atônita. Dessa vez, a revelação da possível verdade através de uma mentira não é encenada.
Serviço
Local: Centro Cultural Banco do Brasil
Endereço: Rua Alvares Penteado, 112, Centro, São Paulo (SP)
Tel: 11-3113-3651
Temporada: 21/02 a 20/04/2008
Horários: Quintas, Sextas e Sábados às 19h30 e domingo às 18h